Sou filho de pais baianos que vieram para São Paulo em busca de uma vida melhor. Nasci em 1992 e cresci na periferia da Zona Sul: morei no Jardim São Luís, passei nove anos no Jardim Irene e vivi por mais de 20 anos no Parque do Engenho.
Minha família tinha poucos recursos. Meus pais estudaram até a quarta série e trabalharam muito para criar os três filhos. Meu pai teve diferentes ocupações: foi carpinteiro, segurança e porteiro. Mesmo com um salário baixo, conseguiu, junto com minha mãe, comprar um terreno e construir nossa casa. Antes disso, vivíamos com a preocupação de que poderíamos ser despejados. Não passamos fome, graças a Deus, mas muitas vezes tínhamos apenas o básico. Era uma vida de privações, em que precisávamos nos esforçar para pagar as contas. Anos depois, meu pai ainda realizou o sonho de voltar a estudar e concluiu os estudos.
Na adolescência, eu queria ter as mesmas coisas que muitos colegas tinham: um tênis de marca, um celular, roupas legais e dinheiro para sair. Também queria ajudar meus pais. Tentei encontrar diferentes caminhos. Vendi cocadas na rua, procurei trabalho como repositor e funileiro, ajudei como pedreiro e cheguei a recolher latinhas para vender. Algumas oportunidades de trabalho não seguiram adiante porque minha mãe achava que eu ainda era muito novo. Também recebi convites e passei por situações que poderiam ter me levado para o caminho errado. Escolhi fazer o que acreditava ser certo. Hoje, vejo que até o meu medo, naquela época, me ajudou a evitar escolhas que poderiam mudar minha vida para pior.
Uma lembrança que nunca esqueci aconteceu perto da Páscoa. Na escola, meus colegas falavam dos ovos de chocolate e das comemorações que teriam em casa. Eu também queria viver aquilo. Minha mãe, que trabalhava como empregada doméstica e começava a costurar, me deu os cinco reais que tinha para que eu tentasse comprar algum chocolate.
Fui até Santo Amaro e descobri que o dinheiro não era suficiente para comprar o que eu queria. Então comprei duas caixas de biscoitos Max Goiabinha, da Bauducco, uma de chocolate e outra de goiaba. No caminho de volta, abri uma caixa para comer um biscoito. Uma pessoa ao meu lado perguntou se eu estava vendendo. Respondi que sim. O preço sugerido na embalagem era 50 centavos, e comecei a vender. Outras pessoas se interessaram. Quando percebi, eu estava de pé no ônibus, oferecendo os biscoitos, e tinha vendido tudo.
Desci, voltei a Santo Amaro, comprei mais caixas e cheguei em casa com o dinheiro da venda. Naquele sábado, enxerguei uma oportunidade. Na segunda-feira, comecei a repetir o trajeto, dessa vez escondido da minha mãe. Durante um ano, saía às sete da manhã para vender, voltava para casa por volta das onze, tomava banho e ia para a escola à tarde. Eu tinha 14 anos.
Depois de cerca de um mês, contei a verdade para minha mãe. Antes, fiz uma compra grande no mercado com o dinheiro que havia juntado: levei iogurte, bolachas, chocolates, doces, outras coisas para casa e até uma jarra. Naquela época, consegui um motorista para trazer as compras. Quando minha mãe viu tudo, começou a chorar, preocupada que eu tivesse conseguido aquele dinheiro pelo caminho errado. Contei a história e expliquei que estava trabalhando. Ela chorou de emoção, me agradeceu e disse que estava feliz por ter criado um homem honesto. Aquele momento ficou comigo para sempre.
Cerca de um ano e meio depois, alguém conheceu minha história e me deu uma oportunidade em uma empresa de tecnologia, a Icon, em Osasco. Entrei sem conhecimento na área, mas encontrei pessoas que me ensinaram uma profissão e me ajudaram a iniciar uma carreira em TI. É o caminho profissional que sigo até hoje.
Essa é uma parte importante da minha história e de onde nasceu meu desejo de empreender. Aprendi desde cedo a procurar oportunidades, trabalhar com o que eu tinha e acreditar que era possível construir um caminho diferente. Minha trajetória começou com duas caixas de biscoitos e a vontade de ajudar minha família. E continua com o mesmo propósito: crescer todos os dias e ajudar outras pessoas a crescer também.
